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Microsoft word - artigo anppas 2010 - naturais versus sociais no debate perito sobr áreas protegidas _gt-2_

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“Naturais” versus “Sociais” no Debate Perito Sobre Áreas Protegidas e oposição analítica ou cilada heurística? Em linhas gerais, é senso comum entre os interessados que o debate sobre áreas protegidas e populações locais caracterizar-se-ia por ser extremamente controvertido, não sendo, como vê-se pelo diálogo acima, diferente dentro do âmbito acadêmico. De fato, cientistas de diversas áreas têm gerado interpretações contraditórias sobre o tema. Explicação recorrente na literatura – portanto, compartilhada por parte dos próprios interessados no debate - para tais argumentações polarizadas centra-se no fato de que estas divergências emergiriam devido às distintas formações acadêmicas dos pesquisadores. Disto resultou a visualização-construção classificatória de uma dicotomia específica centrada na idéia de que estaríamos diante de dois “pólos” (disciplinares) bem delimitados: num, cientistas naturais, noutro, cientistas sociais. Ainda que o trabalho acadêmico siga referenciado por um ethos científico geral, ele se orienta segundo referenciais teóricos, metodológicos e epistemológicos específicos. Haveria, neste caso, um desencaixe fundado em tais diferenças, as quais se concretizariam através da adoção de modus operandi e procedimentos distintos, os quais se materializariam, sobretudo, no âmbito das linguagens e dialetos científicos, ou melhor, no uso prático de conceitos, noções e expressões cujos significados tendem a ser pouco intercambiáveis. Como resultado, o oceano compreensivo e o léxico que separa ciências naturais de ciências sociais seria o fator determinante na constituição da referida polarização, visto que explicaria porque pesquisadores tendem a divergir (muitas vezes, ácida e ruidosamente) ao discutirem questões, aspectos, problemas, impactos e/ou conflitos envolvendo, de um lado, a constituição de áreas protegidas e, de outro, os papéis exercidos pelas populações locais. Mas então estaria aí (nas diferenças disciplinares) a chave para destrinchar tal ambiente polêmico? Seria este o principal elemento motivador desta situação conflituosa e beligerante? Tudo se resumiria à existência de antagonismos disciplinares, ideais de cientificidade que se opõem, referenciais teóricos específicos, procedimentos metodológicos distintos e maneiras de observar a realidade qualitativamente diferentes? De fato, olhando para as controvérsias existentes, a distinção entre ciências sociais e ciências naturais faz todo sentido, já que, sim, ajuda a entender o ambiente polêmico gerado. Portanto, eventuais implicações daí resultantes precisam ser consideradas. Porém, o problema é que tal explicação tende a ser vista, se não como a única, como determinante. Ao reduzir o debate a uma “causa” anterior (formações acadêmicas distintas), esta última passa, paradoxalmente, a funcionar mais como justificativa ad hoc do que como artifício analítico. Como diria Machado de Assis em Brás Cubas, ela adquire a finalidade prática de “ventilar as consciências” dos pesquisadores. Estes - seguindo pensamento de Edmund Leach (1989, p.83): “só nos sentimos emocionalmente confortáveis quando tudo pode ser convenientemente agrupado de acordo com categorias” -, ao olharem o abismo existente entre ambas as disciplinas, vêem-se satisfeitos e convencidos com tal explicação. Ora, o caso é que diferenças disciplinares se somam a outros fatores tão relevantes (embora menos evidentes) quanto elas o são. Apesar de facilmente identificadas na literatura, sua existência não encerra a questão, ao contrário, só faz a feijoada ficar mais apimentada. A começar pelo fato de que esta característica pode muito bem servir como mais um ingrediente para que se acentuem diferenças (como “munição para o ataque”) do que como a causa fundamental por trás de potenciais divergências. Ao invés de distâncias disciplinares colocarem pesquisadores em lados opostos, o contrário pode também ocorrer, isto é, pesquisadores usarem tal distância com objetivo de reforçar divisões prévias e alteridades já existentes para, assim, fixar seus argumentos. Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
A partir desta hipótese, relacionada às discussões peritas sobre a temática já referida, pretendo, por um lado, relativizar o poder heurístico e apontar o viés reducionista da dicotomia “cientistas naturais versus cientistas sociais”, e, por outro, trazer à tona alguns destes “outros fatores” que tendem a ser, se não desprezados, tidos como elementos secundários perante a explicação-justificativa disciplinar. Quanto aos procedimentos adotados e materiais acessados, estes se centraram na análise da literatura produzida por especialistas que se envolveram (tanto produzindo pesquisas como atuando em outras arenas políticas) com a discussão sobre áreas protegidas e populações locais. A estas “fontes secundárias” somam-se dados empíricos que pude ter acesso devido à oportunidade - à época de meu doutorado (ver Gerhardt, 2008) - de entrevistar cerca de 33 pesquisadores com este perfil. Uma primeira constatação extraída do material obtido é que há forte tendência de profissionais com formação heterodoxa, vindos de áreas distantes tanto das ciências sociais como das ciências naturais ou mesmo sem formação acadêmica tradicional interferirem no debate. Assim, se faz sentido restringir, para fins analíticos, disputas interpretativas ao seu viés disciplinar e à distância epistemológica, é preciso levar em conta a decisiva atuação de políticos profissionais, funcionários de órgãos do governo, burocratas, almirantes, ongueiros, conservacionistas, indigenistas etc. que se notabilizaram por um tipo de formação autodidata. Há também elevada versatilidade, entre especialistas, no que se refere ao trânsito por entre áreas distintas. Boa parte destes possui trajetória acadêmica multidisciplinar e/ou circularam por disciplinas muito diferentes (indo da biologia para a antropologia, da ciência política para as ciências ambientais, da ecologia para a sociologia, da história para a biologia da conservação, da biologia para a psicologia social); por fim, mesmo os que possuem formação mais disciplinar viram-se levados (ainda que minimamente) a adquirir certa competência em outros campos do saber. Como qualquer pessoa interessada, cientistas podem muito bem ir atrás de novos conhecimentos mesmo que não tenham tido oportunidade de vivenciar um período de aprendizado em cursos de nível superior (incluindo aí uma eventual pós-graduação). Portanto, tratar diferenças disciplinares unicamente como causa do ambiente polêmico obscurece o fato de que, por trás da formação acadêmica, há uma intencionalidade que faz com que trajetórias sociais singulares sejam construídas. Além de visões críticas dependerem do contexto enunciativo em que se acham inseridas, elas repercutem em planos de afinidade/alteridade distintos. Tal circunstancialidade faz com que um mesmo pesquisador possa expressar diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto. De forma análoga a dinâmica de alianças seguida pelos Nuer (Evans-Pritchard, 2005), em certo contexto um especialista pode discordar fortemente de colegas mais próximos (mais “iguais” em termos de formação acadêmica). Porém, noutra situação, quando encontrar colegas que pensam muito “diferente” dele, poderá deixar tais discordâncias de lado para somar forças contra um “inimigo” comum (que pode se revelar como argumento, tese ou se personificar na figura deste ou daquele pesquisador). Debates sobre a temática em questão tendem a ser extremamente dinâmicos, ou seja, novas questões e perguntas estão surgindo neste exato momento, sendo que, se chegarem aos ouvidos de um especialista, isso poderá levá-lo a rever sua “posição” e, até mesmo, mudar de “posição” (Latour, 2000). Por outro lado, como será preciso, no mínimo, pensar sobre o assunto, essa reflexão poderá, paradoxalmente, ajudar a reforçar sua antiga “posição”. Em síntese, como pontos de vista não são pensamentos pétreos, tal atitude reflexiva poderá tanto vir a flexibilizá-los, alterá-los como fortalecê-los. Concluindo, a existência de planos diferenciados em que argumentos são acionados e outros não, bem como a instabilidade – inter e intradisciplinar – são características do modo como se dão as relações entre pesquisadores. Voltando aos Nuer de Evans-Pritchard, maior proximidade (no caso, disciplinar) não significa necessariamente Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
afinidade automática. Tais especialistas se deparam no seu dia-a-dia com colegas, situações e argumentos diferenciados, sendo que poderão responder a eles também de formas distintas. EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. São Paulo: Perspectiva, 2005. GERHARDT, Cleyton. Pesquisadores, populações locais e áreas protegidas: entre a instabilidade dos “lados” e a multiplicidade estrutural das “posições”. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Aplicadas ao Mundo Rural (CPDA/UFRRJ). Rio de Janeiro: 2008. LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora UNESP, 2000. LEACH, Edmund. A diversidade da antropologia. Lisboa: Edições 70, 1989. Há cerca de dois anos, tive a oportunidade de conversar com um dos personagens centrais nas discussões sobre criação e gestão de unidades de conservação de proteção integral no Brasil nos anos 1980 e 1990. Ao lhe comentar logo de início que gostaria de falar sobre a pesquisa que pretendia realizar, meu interlocutor indagou incisivamente: “é isso que estou querendo saber, o que você está fazendo e quem são as outras pessoas que você está entrevistando”. Não percebendo sua curiosidade em saber os nomes das pessoas que já havia ou pretendia entrevistar, comecei a falar sobre aspectos gerais da pesquisa, o que fez com que me interrompesse e retorquisse: “mas a minha pergunta você ainda não respondeu. Com quem você já conversou e com quem você vai conversar?”. Como, à época, havia recém iniciando o trabalho de campo, as pessoas que já havia mantido contato vinham, na sua maioria, das ciências sociais. Ao ouvir seus nomes, meu interlocutor comentou: “mas da área de ciências da conservação ou das ciências naturais, quem você já entrevistou? Não sei como essas teses acontecem nessas áreas multidisciplinares, mas imagino que deva fazer no mínimo um apanhado em número equivalente de pessoas”. Respondi então que “a idéia não é montar um quadro de guerra entre pesquisadores”; ao que, de pronto e em tom descontraído, meu colega completou: “não é! Mas não precisa, né? Pois ela já está estabelecida [risos]. Bem, e na área de ciências, falando da natureza, das ciências naturais, quem você já Em linhas gerais, é senso comum entre os interessados que o debate sobre áreas protegidas e populações locais caracterizar-se-ia por ser extremamente controvertido, não sendo, como se vê pelo diálogo acima, diferente dentro do âmbito acadêmico. De fato, cientistas de diversas áreas têm gerado interpretações contraditórias sobre o tema. Explicação recorrente na literatura para tais argumentações polarizadas centra-se no fato de que estas divergências emergiriam devido às distintas formações acadêmicas dos pesquisadores. Disto resultou a visualização-construção classificatória de uma dicotomia Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
específica centrada na idéia de que estaríamos diante de dois “pólos” (disciplinares) bem delimitados: num, cientistas naturais, noutro, cientistas sociais. Adams (2000b, p.19), por exemplo, argumenta que, com o tempo, se produziu uma “dicotomização na discussão sobre áreas de preservação”, sendo que de um lado colocaram-se os profissionais mais ligados às ciências naturais, que duvidavam que o homem conseguisse utilizar racionalmente os ecossistemas sem comprometer sua estrutura e preservação. Do outro, profissionais das ciências humanas, que enfatizavam os direitos naturais das populações habitantes/usuárias das áreas de preservação”. Já Azevedo (2002, p.32), ao trabalhar analiticamente com a oposição entre sociocêntricos e ecocêntricos, entende que, para os “adeptos do ecocentrismo (.) incluem-se (.) os biólogos da conservação e os profissionais das ciências naturais em geral, que promovem o modelo de áreas protegidas sem a presença humana (.). Os grupos adeptos da visão sociocêntrica, geralmente oriundos das ciências sociais, partilham e mesmo reforçam esta visão dualista, de separação de natureza e sociedade”. De fato, acusações de parte a parte são recorrentes na literatura especializada, não sendo nada incomum biólogos afirmarem que sociólogos, antropólogos e cientistas sociais envolvidos com nosso “tema quente” não estariam realmente interessados em preservar o meio ambiente ou garantir a proteção de ecossistemas e biodiversidade. Olmos et. alli (2001, p.299), por exemplo, afirmam que, no caso de cientistas sociais e indigenistas, “é óbvio que preocupações sobre a destruição do patrimônio natural não passam pela cabeça dessas pessoas, que além de adotar um discurso dúbio para provar seus pontos de vista, comumente atacam seus críticos chamando-os de racistas e acusando-os de tratar índios como se fossem animais (.), o que, vale lembrar, todos Também é usual afirmar-se que cientistas sociais não teriam a qualificação necessária para analisar aspectos técnicos ligados à conservação in situ da biodiversidade. Terborgh e van Schaik (2002), por exemplo, ambos biólogos da conservação, ao escreverem sobre “eficiência das diferentes categorias para conservar a biodiversidade”, fazem afirmações como “os argumentos são pouco convincentes” e “estudos muito pouco científicos” ao se referir à pesquisa feita fora do escopo das ciências biológicas, estrito senso. Na mesma linha, Miguel Milano (2000, p.21), engenheiro florestal, argumenta que a “compatibilidade entre conservação de diversidade biológica e usos humanos dos recursos naturais é um mito essencialmente fundamentado em deficiências de conhecimento sobre evolução, ecologia e biologia da conservação por parte daqueles que estabelecem essa questão como verdadeira”. Em outro artigo (2002a, p.vii), é ainda mais enfático sobre qual ciência deveria estar à frente das políticas de conservação ambiental: “é do mundo científico, onde se produz o conhecimento, que vêm as mais Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
convincentes razões para se pensar a conservação. É do mundo científico que provêm as razões para a filosofia da conservação que muitos defendem, segundo diferentes formas de pensar. E a principal base para isso se chama evolução, sendo as ciências biológicas a grande fonte do saber correspondente”. Alguns cientistas naturais buscam desqualificar até mesmo o status científico das ciências sociais, como se nota nas recomendações abaixo feitas por Fábio Olmos et. alli (2001, p.299), os quais grafam o substantivo “cientistas” usando aspas, o que, obviamente, significa um claro ataque à condição destes últimos enquanto profissionais que atuam no se ‘cientistas’ sociais querem tentar conservar a biodiversidade com suas estratégias politicamente corretas, devem tentar fazê-lo fora de áreas biologicamente importantes e das unidades de conservação. Se suas experiências derem certo, os conservacionistas serão os primeiros a reconhecer seu sucesso e apóia-los. Se derem errado, todavia, nada de tão importante terá sido perdido, ao contrário do que ocorre hoje nas unidades de conservação invadidas ou ocupadas. Todavia, cientistas sociais também acusam biólogos, ecólogos e outros profissionais das ciências naturais de: serem etnocêntricos e autoritários; de só se preocuparem em “salvar a natureza”; de não se darem conta dos efeitos sociais perversos da implantação de UCs para populações locais em condições socioeconômicas vulneráveis; de se esquecerem de prestar atenção às desigualdades e injustiças sociais pré-existentes nas áreas de alta diversidade biológica ou, ainda, de desvalorizarem conhecimentos e saberes locais. Diegues (1996, p.69), por exemplo, argumenta que as “ciências exatas (.) não apenas desconhece, mas despreza o conhecimento tradicionalmente acumulado por estas populações”; e, apesar de reconhecer que “particularmente as ciências naturais desempenharam papel fundamental nos modelos atuais de conservação (.)”, lastima que “os cientistas acreditam que estão separados dessa realidade e por isso são objetivos (.). Essa visão parcial, positivista, ignora outras alternativas”. Tal como cientistas naturais, o ataque pode se dar através da contestação da cientificidade dos argumentos apresentados e da tentativa de deslegitimar fundamentos que orientem interpretações e ações destes especialistas. Assim, o mesmo antropólogo (Diegues, 1996, p.36) – crítico contumaz de certos cientistas naturais – menciona Gomez- Pompa e Kaus (1992) – cientistas naturais muito citados por centistas sociais devido às suas pesquisas sobre o manejo positivo de recursos naturais feito por populações locais – para ressaltar que “muitas das verdades sobre a natureza selvagem e conservação hoje aceitas provêm de fontes não-científicas”. Em outro artigo, (2000, p.15) alerta: “como não levar em conta a ação humana na análise dos ecossistemas é irrealista, a concepção de Odum contribuiu para criar uma conotação misantrópica ao discurso de Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
alguns conservacionistas”. Além disso, ao opor saber acumulado por populações tradicionais ao conhecimento científico, Diegues (1996, p.69) afirma que se “trata, na verdade, da afirmação do poder da ciência nas mãos dos cientistas e administradores (.). Sabe-se, porém, que a contribuição das ciências naturais para a conservação ainda está em seu início, e muitos de seus pressupostos são discutíveis”. Já Viana (1999, p.241), embora se dirigindo aos técnicos das ciências naturais que trabalham diretamente com políticas de conservação, ao propor a noção de “envolvimento sustentável” no caso de populações tradicionais que vivam próximas ou dentro de áreas protegidas, argumenta que “são raríssimos os técnicos e autoridades que conhecem ecologia dos ecossistemas naturais que vivem nessas áreas (.). Como resultado, as decisões são tomadas com base em informações e interpretações equivocadas”. Divergências teórico-epistemológicas como ponto de partida bipolaridades latentes que emergem a partir do tipo de formação acadêmica são fartas na literatura. Trata-se de uma dimensão específica em que novamente surge bem demarcada a idéia de que estaríamos diante de dois “lados” (neste caso, disciplinares). De fato, se lógicas que regem argumentações de cientistas de diversas áreas seguem referenciadas pelo ethos científico geral, elas também se orientam segundo referenciais teóricos, metodológicos e epistemológicos específicos. Haveria, neste caso, um desencaixe fundamentado em tais diferenças, mas que se concretizaria através da linguagem, ou melhor, do uso prático de conceitos, categorias e expressões com significados pouco intercambiáveis. Tal aspecto também foi percebido por alguns pesquisadores. Paul Little (2004), por exemplo, em “A etnografia dos conflitos sócio- ambientais: bases metodológicas e empíricas, propõe às ciências naturais e às ciências sociais o desafio de encontrar uma “simetria epistemológica”: se a análise social confronta o desafio de incorporar as dinâmicas do mundo biofísico dentro de sua prática, as ciências naturais enfrentam o desafio inverso: no seu entendimento dos distintos ciclos naturais teria que levar em conta o mundo humano e suas estruturas políticas e sócio-econômicas. Em ambos os casos, é necessário que haja um diálogo profundo entre as Ciências Naturais e as Ciências Sociais para produzir uma ciência verdadeiramente ecológica que focaliza o relacionamento dinâmico e interdependente entre o mundo biofísico e o mundo social. Isto, por sua vez, requer certas mudanças paradigmáticas na prática científica nos planos epistemológico, metodológico etc. Se concordarmos com Little, o oceano compreensivo que separa ciências naturais e ciências sociais e suas disciplinas, subdisciplinas e ramos do conhecimento não poderia ser desprezado caso buscássemos compreender o modo como atuam profissionais de ambas as áreas. Numa avaliação panorâmica, poderíamos propor que os primeiros Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
tenderiam a se basear em procedimentos que buscam, através da relação entre causa e efeito, trabalhar com fatos, seres e eventos tidos como precisamente delimitáveis. Do mesmo modo, através de modelos que permitam reproduzir simulações e experimentações visando controlar ao máximo variáveis envolvidas, estariam mais preocupados em encontrar regularidades e fenômenos invariantes capazes de permitir o estabelecimento de padrões, leis objetivas e explicações universais. Neste caso, uma primeira diferença inicial, em relação a muitos cientistas sociais, seria que estes podem estar interessados justamente nas especificidades, em mostrar a diversidade, em perceber casos que fogem à regra, em não generalizar, em encontrar o inusitado numa situação bem conhecida, em apontar fatos inesperados e aparentemente inexplicáveis e irredutíveis a uma única explicação lógica. Ao invés de buscar pelo que é constante, contínuo, invariável, normal e ordinário, procurariam encontrar e descrever desvios, Além disso, como comenta DaMatta (1981), nas ciências sociais, ao contrário das ciências naturais, não há tanta indução. Podemos observar fatos sociais, mas não reproduzi-los através de repetidas “experiências”. Seria impossível repetir o processo de criação de um parque nacional, por exemplo, bem como a dinâmica social desencadeada por este fato para que pudéssemos estudá-lo diversas vezes. Igualmente, seria problemático generalizar episódios específicos passados em algum lugar e tempo histórico determinados para outros contextos também específicos. No caso de desencontros entre pesquisadores que trabalham com nosso “tema quente”, volta e meia ocorre fenômeno parecido com os “mal-entendidos” descritos por Latour (2002, p.18) entre navegantes portugueses e negros da Costa da Guiné no século XVII. Sucintamente, o autor descreve incompreensões (e acusações, no caso dos portugueses) de parte a parte a respeito dos sentidos, do valor conferido e da forma distinta com que ambos os povos lidavam com seus ídolos, divindades e fetiches. Assim, o que o observador externo via ao olhar portugueses e negros da Costa da Guiné discutirem sobre estes ídolos e divindades eram “povos cobertos de amuletos ridicularizando outros povos cobertos de amuletos (.). Porém, o mal-entendido persiste, pois todos se recusam a escolher os termos que lhes são próprios”. Ora, se substituirmos “povos” por cientistas e “amuletos” por argumentos, situações semelhantes ocorrem ao observarmos cientistas debatendo controvérsias ligadas ao nosso “tema quente”. Aqui, estenderia conselho de Lévi-Strauss (1989, p.28) sobre a distância que separaria ciência e magia: em lugar de opor cientistas sociais e cientistas naturais, “seria melhor colocá-los em paralelo, como dois modos de conhecimento Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos”. Como disse certa vez o renomado primatólogo Cláudio Pádua durante uma palestra no Rio de Janeiro em 2008, “às vezes a gente está falando sobre mesma coisa, só que a linguagem que a gente usa não ajuda Como percebeu Luis Cardoso de Oliveira (2007), muitas vezes cientistas se vêem colocados diante de “situações de mal-entendidos corriqueiros, quando os atores não compartilham a mesma definição da situação vivida em conjunto”. Momentos em que, para além de uma discussão concreta (no caso, sobre aumento ou não de biodiversidade), entra em ação a “importância das evidências simbólicas” que marcam a Por outro lado, se cientistas naturais tenderiam a circular por certos espaços sociais (e, igualmente, a ajudar a construí-los) e cientistas sociais por outros, a probabilidade deles se encontrar (tanto no sentido estrito e concreto como no sentido amplo, virtual ou figurado) tenderia, por sua vez, a ser menor em comparação a possibilidade de interagirem com colegas da mesma área. Aqui caberia o comentário de Bourdieu (1996a) sobre a distância entre ambientes “que predizem encontros, afinidades, simpatias e até desejos” (Bourdieu, p.1996a, p.25). Também no caso de pesquisadores vindos de áreas ‘entenderão’, não compreenderão de fato uns aos outros e não agradarão uns aos outros. A proximidade no espaço social, ao contrário, predispõe à aproximação: as pessoas inscritas em um setor restrito do espaço serão ao mesmo tempo mais próximas (por suas propriedades e suas disposições, ‘seus gostos’) e mais inclinadas a se aproximar; e também mais fáceis de abordar, de mobilizar. Isso não significa que elas constituam um grupo mobilizado por objetivos comuns e particularmente contra outro [grupo]1. No caso das controvérsias entre pesquisadores que se debruçaram sobre o tema das áreas protegidas e populações locais, a “proximidade” de que fala Bourdieu se refere à dimensão física e espacial, mas, também e sobretudo, aos espaços acadêmicos e intelectuais (os quais incluem publicações científicas) por onde circulam pesquisadores. Para além das dicotomias disciplinares De fato, é certo que peculiaridades históricas, epistemológicas e teórico-metodológicas destas duas grandes áreas contribuem para que desentendimentos ocorram. Afinal, quando olhamos as controvérsias sobre nosso “tema quente”, a distinção entre ciências sociais e ciências naturais faz, de fato, bastante sentido (como vimos, também para os 1 Já relativizando a afirmação, como comentei no item 2.8, proximidade não significa necessariamente maior empatia ou cumplicidade, pelo contrário, embora próximos em termos disciplinares, o clima entre pesquisadores pode ser marcado pela crítica contumaz ou, até mesmo, pela belicosidade (ver item seguinte). Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
próprios pesquisadores) e ajuda a entender o ambiente polêmico gerado. Ademais, como estes utilizam largamente esta forma de se distinguir, não poderia deixar de abordá-la como tal. Portanto, tais diferenças precisam ser consideradas. Mas então estaria aí (nas diferentes formações acadêmicas) a chave para destrinchar o ambiente controvertido e polêmico que marca as discussões sobre populações locais e áreas protegidas? Seria esta a principal explicação para a situação conflituosa e beligerante em que estamos todos metidos? Tudo se resumiria à existência de antagonismos disciplinares, ideais de cientificidade paralelos, referencias teóricos diversificados, procedimentos metodológicos distintos e maneiras de observar a realidade qualitativamente diferentes? Se diferenças disciplinares se somam a outros fatores tão relevantes quanto. Apesar delas serem facilmente identificadas na literatura especializada, sua existência não encerra a questão, ao contrário, só faz a feijoada ficar ainda mais apimentada. A começar pelo fato de que esta característica pode muito bem servir como mais um ingrediente para que se acentue diferenças (como “munição para o ataque”) do que como a causa fundamental que estaria por trás de potenciais divergências. Dito de outra forma, ao invés de ser a distância disciplinar que divide pesquisadores em lados opostos, o contrário pode também ocorrer, isto é, pesquisadores fazerem uso de tal distância com o objetivo de retomemos o diálogo que tive com o Ivan, que abre este capítulo, para desenvolver alguns aspectos ligados ao papel da formação disciplinar no estabelecimento de P - Você tem necessidade que as pessoas que você entrevista sejam pessoas tituladas, sejam mestres ou doutores ou podem ser pessoas que escrevem, que fazem a opinião, que são referência? C - O que importa é que eles participem do debate político e, ao mesmo tempo, circulem nos meios acadêmicos, que publiquem em revistas e, sobretudo, que estejam influenciando o debate científico. P - Então perfeito, tenho três nomes que, com certeza, estão, porque são reconhecidos como ótimos especialistas. Um é (.) funcionário do IBAMA, mas possivelmente seja dos caras mais importantes no processo de criação de UCs de proteção integral do país nos últimos 11 anos. Então certamente seria um nome. Não é um cara típico da academia, mas que tem várias coisas escritas e que enfrenta debates muito consistentes com todo o povo mais especialista. Outro é um cara que não tem graduação, trabalha com baleias. Provavelmente, nos últimos cinco anos, em toda reunião da comissão internacional de baleias, tem sido o vice-presidente da comissão brasileira. Só não é presidente porque o presidente (.) é sempre representado por um diplomata. Mas ele capitaneia essa posição e não tem graduação. De forma que não passa desapercebido no mundo da conservação, em hipótese nenhuma, no mundo político e dos debates etc. Então esses dois você poderia ir atrás mesmo estando fora do âmbito da academia. Acho que deveria falar com (.), almirante aposentado, mas com trabalho muito interessante na área de paleontologia e paleoecologia e que escreveu um livro com (.) um dos maiores naturalistas brasileiros ainda vivos. Mesmo (.) não sendo uma pessoa da academia, é um cara que tem uma centena de artigos científicos. Como podemos notar, as indicações deste pesquisador ilustram o fato de que há forte possibilidade de profissionais com formação heterodoxa, vindos de áreas distantes tanto das ciências sociais como das ciências naturais ou mesmo sem formação acadêmica Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
tradicional interferirem no debate político-científico sobre nosso “tema quente”. Assim, se faz sentido restringir, para fins analíticos, disputas interpretativas ao seu viés disciplinar e à distância epistemológica envolvida, devemos olhar tal explicação com cautela. Afinal, é preciso levar em conta a decisiva atuação de pessoas (incluindo aí políticos profissionais, funcionários de órgãos do governo, burocratas, almirantes, ongueiros, conservacionistas, indigenistas etc.) que se notabilizaram muito mais pela sua formação autodidata e pelo constante trânsito e interesse por áreas distintas sem que, para isso, necessitassem ter Em “Saudades do Matão”, por exemplo, durante a conversa-entrevista coordenada por Tereza Urban (1998, p.205) da qual participaram Maria Tereza Pádua, Ibsen Gusmão Câmara, Adelmar Coimbra, Paulo Nogueira-Neto e Alceu Magnanini, este último comenta, enfático: “apenas quero dizer o seguinte: eu – como quase todos aqui – não tive escola de conservação. Não nos formamos em conservação, somos todos autodidatas”. Alegação parecida surgiu nas entrevistas ao conversar com uma das figuras mais influentes na década de oitenta no que se refere à criação de UCs. Ao questioná-lo sobre como se identificaria enquanto profissional, meu interlocutor ponderou: “nem sequer sou profissional dessa área, eu trabalho nisso há muito tempo, mas na verdade não posso dizer que seja um profissional”. Ora, apesar do processo de cientificização e institucionalização crescente do debate sobre áreas protegidas e populações locais, a autoridade e o reconhecimento que certas pessoas com este perfil detêm para falar sobre o tema (também nos meios científicos) não pode ser simplesmente desconsiderada. Outro aspecto problemático relaciona-se com uma fala de Alceu Magnanini durante palestra proferida em 2002 no III CBUC, ocorrido em Fortaleza: o auditório compõe um universo de conhecimentos e bem que eu gostaria de saber mais sobre cada uma das pessoas, mas como somente eu é que falo, justo é que vocês possam saber quem ou o que é o palestrante. Naturalista? Analista ambiental? Acreditem, desempenhei oficialmente todas essas carreiras ou funções; afinal tenho quase setenta anos e deu pra agüentar tudo isso (Magnanini, 2002). Ao tratar diferenças disciplinares unicamente como causa do ambiente controvertido que marca as discussões sobre populações locais e áreas protegidas, deixaríamos de lado o fato de que, por trás da formação acadêmica dos pesquisadores, há uma intencionalidade que faz com que trajetórias sociais singulares sejam construídas ao longo de suas vidas. Como qualquer pessoa interessada, eles poderão muito bem procurar se informar e ir atrás de novos conhecimentos mesmo que não tenham tido a oportunidade de vivenciar um período de aprendizado em determinado curso de nível superior ou pós-graduação. Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
fato de certas opções tomadas por pesquisadores não poderem ser reduzidas simplesmente a sua “origem” disciplinar ou a sua condição de expert privilegiado de determinada área. Como tentei mostrar então, a maioria dos entrevistados possui trajetórias acadêmicas marcadamente multidisciplinares; já outros vieram originalmente ou circularam, em algum momento de suas carreiras, por disciplinas bem distintas em termos epistemológicos, metodológicos e/ou teóricos; e, mesmo aqueles que possuem formação mais disciplinar foram levados a buscar ou adquirir conhecimentos mínimos em Como Magnanini, vários entrevistados apontaram para a expressiva versatilidade no que tange ao trânsito por entre áreas completamente distintas, indo, por exemplo, da biologia para a antropologia, da ecologia para a sociologia, da ciência política para a antropologia tendo a matemática como interesse permanente (ainda que secundário), da biologia para a antropologia ecológica, da agronomia para a ecologia, da administração para a zoologia, da sociologia para a história ambiental, das ciências sociais para a geografia e assim por diante. Assim, se considerarmos que cientistas também fazem escolhas no que se refere ao sentido por eles dado às suas vidas acadêmicas, bem como a possibilidade destes transitarem por diferentes dimensões do conhecimento científico, como ficaria A situação se complexifica quando se pensa na quantidade de pesquisadores envolvidos com nosso “tema quente” vindos de áreas que não se encaixam muito bem nem nas ciências sociais nem nas ciências naturais, tais como geografia, jornalismo, educação ambiental, direito, (sem falar nas ciências aplicadas). Razoável pensar que tal situação seja um elemento que cause desencontros, antagonismos, controvérsias, pois relativa confusão é gerada quando temos, ao mesmo tempo: um ecólogo interessado em “dinâmicas sinecológicas”, “interações biocenóticas”, “fluxos gênicos”2; um etno-x (etnobotânico, etnozoólogo, etnobiólogo etc.) aplicando o método “da bola de neve” ou das “caminhadas livres walk in the woods”3; um antropólogo identificando “relações diádicas” e “dupla filiação unilinear”4; um biólogo da conservação discutindo a validade da 2 Também conhecida como “ecologia das comunidades”, a sinecologia dinâmica estuda o funcionamento de um conjunto de espécies diferentes vivendo num mesmo habitat e suas modificações ao longo do tempo. Já “interações biocenóticas” refere-se às distintas possibilidades de associação entre populações de espécies diferentes presentes em uma região que apresenta uma relativa regularidade de condições ambientais. 3 O “método da bola de neve” é um procedimento muito comum entre etnobiólogos, sendo usado para coleta de dados junto a determinado grupo social em que um entrevistado indica o próximo a conceder a entrevista. 4 Conforme Landé (1977, p.2), “uma relação diádica, no seu sentido de ciência social, é uma relação direta envolvendo alguma forma de interação entre dois indivíduos.(.). Implica ligação pessoal. Distingue uma diádica de uma relação na qual dois atores estão ligados um ao outro indiretamente como uma conseqüência do fato de ocuparem lugares ou posições que estão interligados ou de serem membros de um mesmo grupo”; já sobre “dupla filiação unilinear”, Auge Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
idéia de “SLOSS”5; um advogado citando diretrizes de sua “doutrina”6; um paleontólogo que descobre “refúgios do pleistoceno”7; um primatólogo entretido com seus “scans”8; um geógrafo especialista na “linguagem HPGL”9; um agrônomo preocupado em diagnosticar e descrever diferentes “sistemas agrários” e “sistemas de produção”10; enfim, um sociólogo falando sobre “nomos”, “doxa” e “habitus”11. Se olharmos por outro prisma, esta variedade de profissionais atuando com temáticas e instrumentais metodológicos tão distintos - mas ainda assim ligados ao debate sobre nosso “tema quente” - sugere, paradoxalmente, que uma diferenciação rígida entre ciências sociais e ciências naturais deva ser vista com cautela. Se temos tanta gente diferente atuando neste campo, como incluí-los nesta grande divisão disciplinar? Como explicar divergências entre pesquisadores sem considerar estes outros personagens desta história? Já no caso da forma com que são construídos “problemas de pesquisa” (que, como visto no item anterior, podem ser bem diferentes), esta subentende escolhas prévias. Apesar de haver diferenças disciplinares quando pensamos nossos “objetos” de pesquisa, opções precisam ser feitas, o que implica enfatizar, marcar, enfim, acentuar algumas coisas e não outras. Igualmente, o modo de olhar a realidade e a forma como conquistamos aquilo que iremos pesquisar, embora orientado, não está previamente determinado por influências teóricas, metodológicas e epistemológicas. (2003, p.23) comenta que se trata de uma “justaposição de duas filiações unilaterais (patrilinear ou matrilinear), cada uma regendo, com exclusão da outra, a transmissão de determinados direitos". 5 Abreviação derivada da expressão “single large or several small” e que se originou quando das discussões sobre o segundo princípio baseado na “teoria da biogeografia de ilhas” (teoria muito importante dentro da biologia da conservação), o qual recomenda que “uma reserva grande é melhor do que várias pequenas que totalizem a mesma área” (Pires et. alli, 2006, p.235). 6 Conforme Santos (2001, p.86), “Doutrina” seriam “princípios, opiniões, idéias, juízos críticos, conceitos e reflexões teóricas que servem de base a um sistema que os autores expõem e defendem no ensino e interpretação das ciências; como doutrina jurídica, é formada pelos pareceres dos juristas nas suas obras, artigos e arrazoados”. 7 Bensusan (2001, p.186) observou que “a teoria dos refúgios associa a maior diversidade biológica da Amazônia aos refúgios do Pleistoceno, que seriam as áreas que teriam permanecido cobertas com florestas, durante as glaciações do Quaternário”. 8 Segundo Guilherme Sá (2006, p.80), “método de coleta de dados por amostragem muito comum [entre primatólogos] desde que foi sistematizado por Altmann (.). Esse sistema (.) serve para determinar a localização, o tipo de atividade e os indivíduos situados mais próximos dos animais a vista do pesquisador”. 9 Como consta na página eletrônica do IBAMA, HPGL seria uma “linguagem utilizada na criação de arquivos digitais destinados à impressão de mapas ou outros desenhos que possuam apenas elementos vetoriais (linhas, por exemplo)” (http://www.ibama.gov.br/siucweb/guiadechefe/glossario/verbetes – janeiro de 2008). 10 “Sistema de produção” refere-se a um método francês que, no Brasil, ganhou expressão nos anos 1990, sendo usado para produzir diagnósticos e tipologias sobre localidades rurais. Segundo Mazoyer (1987 apud Garcia Filho, 1999, p.18), “sistema agrário é um modo de exploração do meio historicamente constituído (.) [que combina] as seguintes variáveis: meio cultivado, instrumentos de produção, força de trabalho social, modo de ‘artificialização’ do meio, divisão social do trabalho, excedentes agrícolas e relações de troca”. Já “sistema de produção”, segundo o autor (1987 apud Garcia Filho, 1999, p.26), seria a “combinação mais ou menos coerente de diversos subsistemas produtivos: sistemas de cultivo, sistemas de criação, sistemas de processamento de produtos agrícolas no estabelecimento, distribuição e repartição da força de trabalho e dos meios de produção”. 11 Uma breve descrição destas expressões pode ser encontrada no primeiro capítulo (ver notas 19 e 21). Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
Se atentarmos para tal possibilidade, os exemplos hipotéticos do item anterior poderiam ser pensados de outro modo: um engenheiro florestal também poderá estar preocupado em verificar o grau de resiliência12 do ecossistema local em uma floresta nacional visando regularizar a extração de madeira por ribeirinhos que vivem no seu interior13; já, nesta mesma região, um sociólogo poderá estar interessado em atuar como mero “assistente” dos agentes ambientais no processo de “diagnóstico” socioeconômico e ambiental normalmente feito antes da criação de uma UC; por outro lado, um botânico poderá vir a estudar os efeitos ecológicos positivos (manutenção de biodiversidade) da dispersão aleatória de espécies nativas feita por caiçaras em suas andanças por uma reserva biológica ou devido ao próprio plantio dessas espécies em suas terras; já um etnobotânico, pesquisando nesta mesma região, poderá adotar uma postura utilitarista ao tratar conhecimentos tradicionais destes mesmos caiçaras sobre espécies nativas desta reserva biológica simplesmente como algo “útil” à conservação ou, ainda, etnocêntrico ao avaliar estes saberes tendo com parâmetro o conhecimento científico; do mesmo modo, um ecólogo poderá desejar comparar o impacto da caça de animais silvestres ou ameaçados de extinção entre o manejo executado por seringueiros de uma reserva extrativista e o manejo feito por grileiros e fazendeiros que se instalaram no seu entorno, concluindo pela sustentabilidade ecológica dos primeiros e insustentabilidade dos segundos; já um antropólogo, nesta mesma reserva extrativista, ao descrever regras cotidianas e interdições costumeiras que estes mesmos seringueiros se auto-impõem quando se trata do acesso às chamadas “áreas de uso comum”, poderá concluir que há fortes indícios de que tais regras e interdições desaparecerão no futuro próximo devido ao 12 Para uma definição de resiliência, ver página 207. 13 Um exemplo típico deste tipo de estudo realizado por cientistas naturais se deu na região de Maquiné/RS. Através de trabalhos conduzidos ou acompanhados por biólogos, agrônomos e um engenheiro florestal conseguiu-se, depois de mais de 10 anos, legalizar a extração da samambaia-preta nesta região por agricultores e agricultoras que se reconhecem como “samambaieiros”. Sem estes estudos (ver Souza e Kubo, 2008), que visavam determinar o grau de impacto ecológico deste tipo de extrativismo, dificilmente os samambaieiros hoje estariam dentro da lei e livres dos constrangimentos legais impostos pela fiscalização local, por exemplo. Outro estudo que vai nesta direção foi realizado por Amaral (1998), cuja formação é em agronomia. Este defendeu sua dissertação de mestrado com o título: “Parques e comunidades rurais são compatíveis? Estudo de caso no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro” (Amaral, 1998). Porém, em suas “considerações finais”, afirma que “este trabalho teve por objetivo discutir a questão da compatibilidade entre parques e comunidades no sentido de construir fundamentos para uma abordagem baseada na permanência de comunidades rurais tradicionais em porções específicas do parque”. Sua pergunta é ainda mais problematizadora: “por que comunidades rurais não podem permanecer em porções limitadas de parques?”. Embora tenha perdido atualidade com a aprovação do SNUC, Amaral argumenta que “a análise da legislação ambiental levou-nos a concluir que existe uma abertura legal que permite a manutenção de comunidades tradicionais históricas em porções limitadas de parques, denominadas zonas histórico-culturais (.). Assim sendo, ao responder à primeira indagação concluímos que é possível a permanência de comunidades tradicionais em porções limitadas de parques” (Amaral, 1998, p.177-178). Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
efeito da “tragédia dos comuns” descrita por Hardin (1966)14, servindo então de subsídio para ações policialescas de agentes ambientais. Poderia seguir adiante, mas paro por aqui, pois desejo ressaltar com estas situações de pesquisa hipotéticas modificadas (ver item anterior) que há escolhas a serem feitas que não são redutíveis ou concernentes apenas às diferenças epistemológicas, metodológicas ou teóricas que separam cientistas naturais de cientistas sociais e estes de outros profissionais de outras áreas. Dito de uma fora direta, determinar ou construir “objetivos” ou “problemas de pesquisa” pode ser uma atividade muito pessoal e não tão ligada ao tipo de formação acadêmica ou mesmo à disciplina atual onde estes últimos atuam. Enfim, ter uma formação acadêmica específica pode ser muito mais um ponto de partida para que outras decisões sejam tomadas. Por outro lado, quando vemos esforços de vários biólogos, ecólogos, botânicos e outros profissionais das áreas biológicas engajados em produzir pesquisas na linha dos chamados “etnoconhecimentos”, fica difícil sustentar uma rígida cisão entre ciências naturais e ciências sociais. Fato este que levou um dos principais críticos ao trabalho de diversos cientistas naturais sobre esta temática a reconhecer a importância destes mesmos cientistas e, até mesmo, colocá-los a frente dos cientistas sociais no que tange ao papel e à capacidade de transformação do perfil das políticas de conservação atuais: Grande parte desse trabalho [de construção das etnociências] é realizada por uma nova geração de cientistas naturais (.) que começa a influenciar políticas públicas conservacionistas de caráter participativo. Isso revela que seria simplista reduzir o debate ambiental às visões diferenciadas dos cientistas naturais e sociais. Em vários países tropicais, as mudanças que estão ocorrendo na conservação se devem muito mais a esses cientistas naturais, com sensibilidade para as questões locais, que aos cientistas sociais. É revelador o fato de que ainda são raros os cientistas sociais que acham importantes as questões relativas à conservação, seja por receio do determinismo geográfico, seja também por considerarem essas questões como feudos dos cientistas naturais (Diegues, 2004, p20). Esta citação ilustra o fato de que aqueles que seriam teoricamente mais próximos não necessariamente são aliados permanentes. Reparem que a frase final (“é revelador o fato de que ainda são raros os cientistas sociais que acham importantes as questões relativas à conservação, seja por receio do determinismo geográfico, seja também por considerarem essas questões como feudos dos cientistas naturais”) poderia perfeitamente fazer parte de um texto escrito por autores como Dourojeanni, Olmos, Milano, Schaik, A importância dos lugares de enunciação na conformação de divergências interpretativas 14 A expressão “tragédia dos comuns” refere-se a uma metáfora proposta por Garret Hardin em um famoso artigo seu de 1968. Hardin imaginou uma situação hipotética em que uma determinada comunidade teria livre acesso aos bens comuns utilizados pelas pessoas que ali vivessem, sendo que, ao final de sua análise, chegou à conclusão de que isto tenderia a levar a uma sobre-exploração dos recursos naturais. Conforme sentencia uma frase célebre sua: “a liberdade em relação a recursos comuns gera a ruína de todos” (1968 apud Fanny et. alli p.18). Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
A abertura foi iniciada por Miguel Milano, que expôs que aquele seria o segundo congresso de UCs do qual sua filha participaria, naquele momento como bióloga formada. Ela teria encontrado o pai no saguão do evento e mostrado o seu crachá, feliz por conter só o sobrenome da mãe, pois assim as pessoas não ficariam constrangidas quando ela se aproximasse das conversas, já que seu pai seria muitas vezes considerado um “conservacionista radical”. Como tentei mostrar, fortes divergências separam cientistas sociais ao discutirem questões ligadas ao nosso “tema quente”. Porém, críticas normalmente são apresentadas e debatidas em lugares enunciativos específicos freqüentados por um público prioritário (no caso anterior, especialmente antropólogos). Há então tendência de que, ao menos inicialmente (pois, como vimos com Adams, depois de publicado perde-se o controle do que se disse) o debate fique centrado no campo discursivo das ciências sociais. Mas, e se antropólogos como Lucila Vianna, Ronaldo Lobão, Deborah Lima ou Henyo Barretto Filho estivessem numa situação diferente, mas ligada ao nosso “tema quente”? E se, críticos que são às implicações do uso da noção de populações tradicionais, tivessem que comentar os três artigos citados abaixo, escritos por cientistas naturais extremamente críticos às políticas voltadas para populações tradicionais, como reagiriam? Para Terborgh & Peres (2002, p.335 a 340), por exemplo, populações indígenas não aculturadas geralmente perseguem estilos de vida e vivem ampla ou completamente fora da economia de mercado, fazendo com que sejam altamente sujeitas a disrupções [ruína]. (.) se essas pessoas não são consideradas ‘museus vivos’, devem ser procurados caminhos para facilitar sua transição inevitável para a modernidade e a aculturação (.). A presença de comunidades permanentes de extratores, indígenas ou não, dentro do núcleo de terras com a natureza preservada é antiética para a meta da conservação a longo prazo da área (.). Visitantes autorizados, turistas, funcionários dessas áreas e cientistas são pessoas isentas e, em todo caso, não são residentes permanentes (.). É inevitável que mesmo as sociedades mais tradicionais venham eventualmente ser acordadas pelo mundo moderno e, quando isso acontecer, não existirá um ponto natural de parada além da completa assimilação da cultura dominante. O ponto final da aculturação é um estilo de vida como o nosso (.), um estilo de vida incompatível com o conceito de parque ou de preservação da natureza (.). Essa é uma solução insatisfatória, na qual a maioria das soluções resulta em ameaça para os parques e/ou para as populações azaradas o suficiente para serem colhidas dentro deles (.). Por questão de princípio, parques livres de pessoas devem ser meta final. Então, todas as políticas relevantes deveriam ser dirigidas para reduzir a presença humana dentro dos parques. Mesmo que a presença de residentes dentro do parque não possa parecer ameaçadora, ela eventualmente se tornará (.). O impacto da população humana no ambiente é representada pela seguinte fórmula: impacto = (número de humanos) x (o consumo per capta de recursos) x (um ‘fator tecnológico’). Por esta fórmula, é evidente que o impacto humano só pode ser reduzido de três maneiras: a) pela redução do número de pessoas; b) pela redução do consumo per capta de recursos; e c) pela restrição do acesso à tecnologia (.). Nós excluímos a restrição à tecnologia (.) porque, fazendo isso, as pessoas são encerradas dentro de um museu vivo. A redução do consumo per capta por parte de pessoas que já vivem no limite da subsistência é moralmente repugnante, não sendo então uma opção, (.). A única alternativa remanescente é limitar seu número [de pessoas vivendo na área]. Limitar o crescimento da população é indolor, leva ao aumento da disponibilidade de recursos per capta e é moralmente aceitável na maioria das sociedades (.). Um exemplo familiar a nós envolve (.) o Parque Nacional Manu [Peru] (.). Funcionários do serviço de saúde foram enviados às aldeias Machiguenga do parque para anunciar a disponibilização de Depo Provera, um contraceptivo injetável a ser tomado pelas mulheres (.). Os homens foram instruídos a transmitir a suas mulheres o que lhes havia sido ensinado. Não foi aplicada pressão (.). Um bom número de casais decidiu que já tinha crianças suficientes e agora as esposas estão recebendo periodicamente injeções de Depo Provera (.). Na nossa visão, programas assim são a única esperança caso populações indígenas continuem a ocupar indefinidamente parques e reservas (.). O que é mais crítico é que qualquer programa de 15 A fala reproduzida acima deste “conservacionista radical” (um dos organizadores do referido encontro) teria sido proferida, segundo Creado, na sessão solene de abertura do IV CBUC, realizado em Brasília em 2004. Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
realocação, quer ativo ou voluntário, deve ser executado de um modo que seja percebido como justo e não objetável por parte de todos os envolvidos. Mais recentemente, Fábio Olmos (2008, disponível em http://www.oeco.com.br) - zoólogo que, como diz sua apresentação no início do texto reproduzido abaixo, tem “gosto pela relação entre ecologia, economia e antropologia” – escreveu para a revista eletrônica O agora quilombola é a comunidade que se autodefine como tal, e quilombo é a área que os autodefinidos quilombolas dizem ser suas. Sumiu a vinculação objetiva com antigas comunidades de escravos fugidos e hoje são chamados de quilombolas os que são, na realidade, remanescentes de senzalas (.). Outro ponto problemático é ter uma entidade não isenta decidindo quem é quilombola. É uma situação similar à igreja católica receber o controle do programa de prevenção da AIDS ou deixar a educação feminina a cargo do Taleban. Se não fosse uma questão séria, este tipo de coisa seria apenas mais uma das piadas sem graça que as ‘ciênciashumanas no Brasil atraem sobre si mesmas por deixarem de fazer ciência para se dedicarem à militância política vendada pela ideologia. É mais um prego no caixão da credibilidade dos profissionais da área (.). É uma aberração que conceitos e critérios fundamentais para a questão de quem têm direito ou não a um benefício que é pago pelo resto da sociedade careçam de definição precisa e, deliberadamente, não possam ser avaliados de forma independente por partes que não subscrevam a ideologia dos ‘movimentos sociais’ interessados. É como dar o direito de alguém reclamar um prêmio da loteria com base apenas na sua palavra, sem prova material independente (cadê o bilhete?). Isto viola princípios básicos de isenção usados da Ciência à auditoria. Os relativistas culturais pós-modernos que irão me chamar de cartesiano (obrigado!), virão com o lero-lero da fluidez das identidades sociais, ‘historiografia conservadora’ e outras conversas para antropólogo dormir, mas o fato é que as definições ganharam ‘abrangência conceitual’ com o propósito claro de incluir qualquer situação na definição de ‘quilombola’ conforme as conveniências. Isso para mim tem um nome não muito lisonjeiro (.). Como por aqui as unidades de conservação de verdade são vistas por setores do governo como um anacronismo a ser eliminado em prol do ‘social', estas são um alvo favorito para reconhecimento de neoquilombos (.). E graças à estupidez politicamente correta de uns e à falta de empenho de outros, há populações deliberadamente deixadas no seu interior que viram na ‘brecha negra’ uma forma de resolver seu problema, temperado com slogans como ‘racismo ambiental’ (.). São Paulo carregará para sempre a mancha de ser o nascedouro da doutrina furada de que ‘povos tradicionais geram e mantêm a biodiversidade e podem ser mantidos no interior de unidades de conservação’, item de fé para uma vertente dita ambientalista que não resiste a qualquer avaliação científica (.). Estes conflitos são alimentados pelos oportunistas de sempre e por aqueles que acham que os cidadãos de hoje lhes devem compensações por algo que aconteceu a seus ancestrais alguns séculos atrás. Me sinto ofendido por aqueles que olham a cor da minha pele e a priori me consideram um fdp que, se tem algo, foi porque explorou alguém que hoje está na miséria (.). Sociedades multiculturais onde os direitos são realmente iguais tendem a ser saudáveis, mas aquelas onde a questão étnica foi associada a direitos diferenciais caminham para o desastre e para conflitos fratricidas. Um governo assumir políticas públicas abertamente racistas é uma viagem à idade das trevas. Humanos são humanos, seja lá sua cor, formato craniano, QI ou habilidade musical, e deveriam ser respeitados como tal e terem direito às mesmas oportunidades, ficando a seu critério aproveitá-las ou não e arcarem com as conseqüências. Também em O ECO, José Truda Palazzo Jr. (2008, disponível em www.oeco.com.br), referência quase que unânime no que se refere à pesquisa com baleias francas (atualmente, é diretor do “Projeto Baleia Franca”, já com 25 anos de existência, e membro regular da delegação oficial do Brasil na “Comissão Internacional da Baleia”) começa seu primeiro eles eram a Utopia encarnada. As comunidades indígenas, comunidades tradicionais, enfim quaisquer grupos humanos tecnologicamente simples, de baixa demanda energética ou simplesmente pobres que moram em lugares remotos foram decretados pelos (.) teóricos, acadêmicos (.) como detentores do saber mais avançado sobre gestão ambiental. Integrados à Natureza, sábios da floresta, vivendo em harmonia, todos os clichês de Rousseau sobre o bom selvagem que se imaginava na Europa pós-medieval renasceram de imediato (.). De nada adianta que provas se acumulem sobre a nulidade das asserções sobre a "harmonia" das populações nativas com os ambientes que ocupam. Da hecatombe Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
causada pelos polinésios nas ilhas do Pacífico à derrocada das civilizações mesoamericanas, todas produto de má gestão ambiental - não a culpar os seus autores, que nada mais faziam do que ser ignorantes de pleno do resultado de suas ações nefandas (.). Hoje em dia, a aliança perversa de governos corruptos, burocratas safados e "esquerdas" irresponsáveis tornou o mantra das "comunidades tradicionais" um verdadeiro tabu stanilista, proibido de se discutir, se questionar e se confrontar com fatos. O menos que se pode esperar ao levantar esse assunto é ser chamado de fascista. O mais, que se ostracize o herege que o fizer, queimando-o (nem sempre retoricamente) em praça pública. Agora, além de arautos da Utopia do Passado a impedirem, questionarem ou retardarem a proteção das últimas áreas naturais passíveis de proteção, ou de simplesmente tomarem de assalto as poucas existentes (.), os Excluídos Benignos passam a reivindicar também o direito de impedirem a defesa do futuro. Não é outra a leitura que se pode fazer da criminosa bandalheira que os auto-eleitos líderes (?) de "povos tradicionais" e seus arautos (.) estão promovendo nas conferências e discussões (.). "Proteger florestas nos prejudica", gritam os pobres excluídos (.). No fim do dia, o que todo mundo quer está na cara: dinheiro e poder político. Dane-se o planeta, danem-se as florestas, dane-se a biodiversidade, todas coisas dispensáveis, o importante é tirar foto com qualquer um de pele não-branca com uns matos ou praia atrás para por em folhetinho bi ou trilingüe. Está mais do que na hora de se questionar esse estado de coisas. As comunidades tradicionais e pessoas de diversas cores não são melhores nem piores que outras diferentes delas quando se trata de gestão ambiental. Seres humanos têm impactos no ambiente; esses impactos dependem de tecnologia, demanda energética e demografia, e não da cor ou da roupa ou das crenças religiosas das pessoas. Afirmar o contrário é transformar a gestão ambiental numa religião ou ideologia política (.). Se queremos construir um futuro comum para a humanidade nesse planeta finito e estuprado, é preciso que se dê um curto-circuito nesse besteirol pseudo-social e passemos, todos, a tratar de gestão ambiental como algo tecnicamente cabível e possível, mas que depende de fatos e ações, não de versões ou credos. Chega de embuste. Chega de demagogia. Chega de fingir que essa pataquada está resultando em algo que não seja o óbvio: o fim das últimas áreas naturais, por má gestão absoluta e omissão da maioria de nós. Ou então assumimos, de vez, que a "gestão ambiental pública" nada mais é do que um fanatismo a mais: a religião primitiva e canibal da "Natureza para o Homem", professada com igual ardor por lideranças "sócio-ambientais" (.). Por fim, Miguel Milano (2002, p.), reconhecido engenheiro florestal cuja atuação foi decisiva tanto na elaboração, durante a década de oitenta, do primeiro projeto propondo a criação de um sistema nacional de unidades de conservação, como ao longo de todo o processo de discussão, durante os anos noventa, sobre a hoje chamada “Lei do SNUC”, não é difícil considerar eticamente questionável a criação e implantação de reservas extrativistas para manutenção de populações em estado de ‘cultura tradicional’ quando tal cultura, além de se expressar pela pobreza econômica é essencialmente resultado de histórica dominação sócio-econômica, como é a situação das comunidades de quebradeiras de coco de babaçu das reservas maranhenses – é, no mínimo, cruel imaginar que continuar naquele trabalho é o futuro básico que lhes espera, parecendo mais uma condenação sem julgamento para uma falta que não foi cometida. Voltando a pergunta anterior: e se imaginássemos como antropólogos como Lucila Vianna, Ronaldo Lobão, Deborah Lima e Henyo Barretto Filho, preocupados, como vimos, com implicações ligadas à adoção da categoria “população tradicional” e seu uso em políticas públicas, reagiriam caso tivessem que sentar em uma mesma mesa em um encontro sobre áreas protegidas e populações locais para debater, frente a frente, com José Truda Palazzo, Fábio Olmos, John Terborgh, Carlos Peres ou Miguel Milano, como seriam suas intervenções? Que tipo de ênfase escolheriam dar às suas observações? Que direções seguiriam seus comentários? Ao incluir estas quatro passagens, ressalto um aspecto pouco considerado quando olhamos para divergências entre especialistas que trabalham com nossa “questão Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
quente”: o fato de que suas “posições” e “pontos de vista”, mas, igualmente, seus comentários críticos e divergências dependem do contexto enunciativo em que se acham inseridos, mas, sobretudo, que estes mesmos pontos de vista repercutem em planos de afinidade/alteridade distintos. Reparem que Lobão, por mais que seu texto possa ser apropriado por outros pesquisadores, dirige sua crítica especificamente para a qualidade da atuação de antropólogos. É com estes (sobretudo os envolvidos com populações tradicionais) que ele deseja debater. Já Barretto Filho elege, explicitamente na introdução do texto, com quem pretende dialogar: “autores brasileiros contemporâneos que ajudaram a plasmar seu conteúdo [da noção de populações tradicionais] na conjuntura do debate sobre conservação da biodiversidade nos trópicos. Para tanto, me apoio e dialogo com autores que já abordaram este problema de distintas perspectivas (Vianna, 1996; Cunha & Almeida, 1999; Adams, 2000a e 2000b; Schwartzman, 2000)”. Algo parecido acontece com os textos de Bensusan (2001) e Scarano (2006), citados em tópico 3.5. Assim, o artigo de Scarano é destinado diretamente a ecólogos e biólogos da conservação, sendo escrito para um livro (chamado “Biologia da conservação: essências”) onde há vários outros textos técnicos de autores conhecidos neste meio (o que aumenta a responsabilidade no caso de uma argumentação crítica baseada na acusação de que alguns de seus pares estariam trabalhando com “dogmas”, como sustenta Scarano). Já Bensusan escreve para uma coletânea de artigos bem mais eclética. A despeito do título do livro (“Direito ambiental das áreas protegidas: o regime jurídico das unidades de conservação” – Benjamin, 2001) e de vários textos versarem sobre aspectos jurídicos, é só olhar o perfil heterogêneo dos 21 autores que participam desta coletânea para perceber que os temas debatidos são muito amplos. Contudo, repetindo algo parecido com o que disse no capítulo anterior, pesquisadores circulam em volta da “estátua” (esteja ela representando objetos, sujeitos ou um tema genérico qualquer); com isso, têm a possibilidade de olhar particularidades diferentes desta, mas, também, de encontrar pessoas diferentes em seu caminho “olhando para esta mesma estátua”. Um evento ocorrido durante a pesquisa talvez deixe este aspecto mais claro. A certa altura tive oportunidade de conversar com o próprio Henyo Barretto Filho que, como vimos, possui uma postura bastante cética quanto às implicações que envolvem a aplicação do termo “tradicional” em políticas públicas governamentais. Porém, depois de diversos comentários críticos acerca do modo como colegas antropólogos têm lidado com a questão das populações tradicionais, este relatou o seguinte episódio ocorrido durante “Workshop” organizado pelo governo federal que visava identificar áreas prioritárias para Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
fui chamado há um tempo atrás e quando sou chamado pra essas coisas vou pra dar uma chacoalhada, ou seja, não me interessa produzir consenso operacional de consultor. Fui chamado pra participar de um debate sobre a revisão das metodologias usadas pra definir áreas prioritárias pra conservação. Porque tem novos modelos, métodos e oficinas regionais acontecendo pra discutir isso. E teve um primeiro workshop lá em Brasília. Fiquei pensando: ‘o que diabos esses caras querem que eu fale’. Aí fiz um discurso enlouquecido, que até algumas pessoas vieram me parabenizar depois. Disse: ‘olha, como um organismo vivo – fiz uma leitura meio biologizante -, sou organismo vivo desviante. Porque eu, que deveria me preocupar com os mais potentes da minha espécie, porque eles que vão levar os genes para as próximas gerações, sou um organismo vivo desviante. Porque estou preocupado com os grupos dessa espécie, populações da espécie humana, que são mais desfavorecidas no seu potencial de se colocar nos debates em que questões relativas a distribuição de poder estão colocadas’. Disse até que isso era por vício disciplinar, porque a antropologia tradicionalmente pesquisa ‘outsiders’, os outros, alteridade. Comecei minha fala assim, já jogando a discussão pra outro patamar, dizendo: ‘quero discutir isso aqui com vocês. Porque nós estamos aqui deflagrando o processo de revisão das áreas prioritárias e só temos aqui brancos, em sua maioria homens, que falam um linguajar unicamente técnico, que só nós entendemos e vamos deixar a participação para um segundo momento, quando tivermos um acordo consensuado entre nós de que as áreas prioritárias pra conservação são essas. Por que, neste início, não estão aqui nesta plenária participando representantes das organizações do movimento social popular? Acho que isso tem que ver com o modo como cada um de nós pensa o que é produzir conhecimento e o que é o conhecimento relevante pra conservação da biodiversidade. Como nós valorizamos a formação universitária, de nível superior, pós-graduados e especialistas e como colocamos todos os outros conhecimentos como algo acessório, que entram num momento posterior e oportuno. Isso é de um extremo preconceito. Isso é uma hierarquização entre sistemas de conhecimento que não se sustenta em fundamento algum. Nós vivemos até hoje ancorados num modo civilizatório sobre achados que vem do neolítico’. Nada mais “nuerístico”, não? Como vimos no item anterior, Henyo Barretto é extremamente crítico em relação à forma com que vem sendo empregada a noção de população tradicional - tanto entre pesquisadores como nas políticas públicas de um modo geral -, porém, isso não o impede de escolher o que vai falar quando muda o perfil do público para quem deve se dirigir. Novamente, como os embates se dão e as divergências são acionadas em planos de alteridade-afinidade diferenciados, “posições” diferenciadas também poderão ser tomadas. Assim, se no plano do discurso científico este antropólogo critica seus colegas de profissão sobre o modo como vêem a questão das populações tradicionais (o que também fazem Lobão, Lima, Little e Vianna), no plano das arenas que cercam a construção de políticas públicas para estas últimas, suas críticas se voltam para outros atores. Mas, caso este antropólogo participasse de uma reunião semelhante a que esteve Lobão em Luiziânia, arrisco dizer que provavelmente o conteúdo crítico de uma eventual fala sua seria muito diferente. De todo modo, ainda assim há semelhanças entre Olmos e este antropólogo. Por exemplo, na forma de construir e apresentar seus argumentos. Esta proximidade fica nítida quando o primeiro acusa cientistas sociais de se basearem na “doutrina furada de que ‘povos tradicionais geram e mantêm a biodiversidade e podem ser mantidos no interior de unidades de conservação’, item de fé para uma vertente dita ambientalista que não resiste a qualquer avaliação científica” e o segundo enfatiza “como nós valorizamos a formação universitária, de nível superior, pós-graduados e especialistas e como colocamos todos os outros conhecimentos como algo acessório, que entram num Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
momento posterior e oportuno. Isso é de um extremo preconceito. Isso é uma hierarquização entre sistemas de conhecimento que não se sustenta em fundamento algum”. Ora, não “resistir a uma avaliação” (seja ela científica ou não) e não “se sustentar em um fundamento” são coisas muito próximas16. Especificamente sobre o texto de Fábio Olmos, curiosamente, à crítica de Ronaldo Lobão de que antropólogos atuariam contra o protagonismo de grupos sociais subalternos, Olmos deseja que eles façam exatamente isso, ou seja, atuem como árbitros detentores do conhecimento competente para dizer quem seria e quem não seria “população tradicional”. Enfim, que antropólogos façam seu trabalho como deveria ser feito (segundo ele propõe, com isenção e baseado em critérios científicos objetivos). Mas vejam como são as coisas. Enquanto o antropólogo deseja que seus pares abram mão do poder que teoricamente desfrutariam, o zoólogo quer que assumam este poder, isto é, enquanto o “inimigo” deseja dar poder ao seu oponente (claro, sobre certas condições), este último Por outro lado, o artigo de Olmos mostra que algumas discussões ligadas às populações tradicionais assemelham-se a controvérsias vinculadas ao tema das políticas afirmativas. Mas, aproximando pesquisadores com posições totalmente antagônicas, o mesmo pode ser visto em certos trechos de Barretto Filho, como na parte em que este último afirma: “não desconsidero a questão dos direitos das minorias ou os problemas de desagregação cultural (.). Ocorre que importa defender ‘todos’ os povos e grupos sociais que estão lutando para sobreviver e se reproduzir, em particular os mais desfavorecidos e explorados, incluindo aqueles mais facilmente identificáveis como da sociedade inclusiva Ora, se trocarmos “populações tradicionais” por “afrodescendentes” ou “negros” e “povos e grupos sociais” por “pobres” ou “grupos sociais subalternos”, não deixa de ser tentador pensar em correspondências com críticas de antropólogos como Peter Fry (2004), Yvonne Maggie (2004) e José Murilo de Carvalho (2007) à política de ações afirmativas (no sentido de que deveríamos beneficiar “todos” os pobres em geral); além disso, se há a tese de que “políticas da diferença” reforçariam preconceitos racistas, não deixa de ser relevante (como sugere Lobão) a hipótese de que políticas destinadas às populações tradicionais reforçariam distinções entre grupos sociais rurais próximos, mas não 16 Como havia comentado no capítulo um, este parágrafo é um dos poucos em que me permiti fazer uma associação entre textos cujos lugares de enunciação são distintos. Porém, um atenuante, neste caso em particular, é que o artigo de Fábio Olmos foi publicado em uma revista eletrônica (O ECO) cuja linguagem se abre para que seus colunistas façam comentários menos herméticos, mais opinativos e espontâneos. Neste sentido, a palestra do antropólogo num encontro de técnicos (ainda que traduzido por ele durante a entrevista) possui alguma equivalência com o referido artigo de Olmos. Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
reconhecidos como “tradicionais”. Porém, não irei entrar neste tema, apenas registro que se trata de um problema de pesquisa caindo de maduro e um estudo comparativo viria bem a calhar. Embora ambos estejam ligados ao que se tem chamado “políticas da diferença”, são temas com peculiaridades distintas, sendo que, se no segundo caso já há expressivo número de estudos realizados ou em execução, no primeiro este é ainda pequeno. Ainda assim estudiosos começam a fazer pontes, ainda que de modo fragmentado ou, como vimos com Olmos, um tanto visceral e apaixonado (no sexto capítulo veremos paralelos sendo estabelecidos por alguns entrevistados)17. Já o texto de Terborgh e Peres (2002) introduz um aspecto abordado no item 4.1. Vejamos estas duas passagens: a) “no caso dos índios de contato recente (.) a presença cada vez mais significativa da escola, a decadência paulatina da transmissão tradicional de conhecimentos e o uso cada vez mais intenso de produtos industrializados tornam a cultura ecológica ‘mitógena’ progressivamente restrita aos velhos, pondo em risco sua continuidade”; e b) “para a geração mais nova, no entanto, o ‘chamado da civilização’ pode ser irresistível. A influência dos mais velhos decai, assim como suas habilidades, e o seu conhecimento é tido como irrelevante diante dos desafios de adquirir educação”. Similares, não? Porém, extraí o primeiro trecho do artigo escrito pelos antropólogos Lima e Pozzobon (2005, p.56) e o segundo de Terborgh e Peres (2002. p.339), os quais, como vimos, possuem visões distintas sobre papel exercido pelas populações locais em áreas protegidas. Como se verá adiante, a partir de outros exemplos, embora certas constatações sejam comuns a pesquisadores com perspectivas antagônicas, estarão servindo de trampolim para outras afirmações divergentes. Por fim, sobre o artigo de José Truda, parte do seu conteúdo tem a ver com um aspecto que abordarei no próximo capítulo e que diz respeito ao fato de pesquisadores, apesar dos antagonismos de parte a parte, podem partir das mesmas idéias e argumentos visando chegar, contudo, a conclusões contrárias. Assim, se tomarmos os trechos dos antropólogos citados no item anterior, creio que há grande probabilidade destes concordarem com algumas frases escritas por nosso especialista em baleias como, por 17 Um artigo que faz pontes entre políticas para populações tradicionais em áreas protegidas e políticas de ação afirmativa foi escrito recentemente por Lorenzo Aldé (2007) para a Revista de História da biblioteca nacional. Aí se encontram citações de autores com formações diversas e visões tão heterogenias quanto o zoólogo Fábio Olmos, o historiador ambiental Warren Dean, o economista Roberto Monte-Mor e os antropólogos José Arruti, Márcia Motta, José Carlos Rodrigues, José Murilo de Carvalho e Ugo Maia de Andrade. Sobre o teor do artigo de Aldé, apesar de alguns contrapontos (Lilia Schwarcz é escalada em um box para mostrar uma visão diferente da maior parte do teor do texto principal), sua perspectiva inclui tanto aspectos expostos por Barretto Filho como por Maggie e Fry (com direito a box com o dobro do tamanho de Schwarcz para José M. de Carvalho). Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
comunidades indígenas, comunidades tradicionais, enfim quaisquer grupos humanos (.) de baixa demanda energética ou simplesmente pobres que moram em lugares remotos foram decretados [por alguns] (.) como detentores do saber mais avançado sobre gestão ambiental. Integrados à Natureza, sábios da floresta, vivendo em harmonia, todos os clichês de Rousseau sobre o bom selvagem (.). As comunidades tradicionais e pessoas de diversas cores não são melhores nem piores que outras diferentes delas quando se trata de gestão ambiental. Seres humanos têm impactos no ambiente. Voltando a questão dos planos de afinidade/alteridade, ocorre que se, por um lado, podemos discordar fortemente de colegas mais próximos (mais “iguais” em termos de formação acadêmica ou orientação política), por outro, quando encontramos colegas que pensam muito “diferente” deixamos desavenças de lado para somar forças e lutar, tal como os Nuer, contra um “inimigo” comum. Creio que uma situação envolvendo uma das entrevistas possa deixar clara esta possibilidade. Conversando com uma antropóloga que desenvolve pesquisas há cerca de dez anos na Ilha Grande18, comentei com ela a certa altura: “um dos pontos quentes é essa discussão sobre populações tradicionais; você sabe que hoje (.) tem previsto direitos a elas e há todo um movimento das populações tradicionais; como você vê esse debate?”. Em seguida minha interlocutora (que chamarei sei que esse tema das populações tradicionais é um rolo, embora tenha algumas tentativas de definição (.). Na ilha, o problema é que são caiçaras; tradicional seria, digamos, o que corresponderia a você chamar um grupo lá de caiçara. Então, nesses meus trabalhos eu até falo que o mais nativo, quando uma pessoa quer dizer que o outro é nativo mesmo, ele fala: “fulano é caiçara, é nascido aqui e tal”. Mas isso é uma coisa muito fluída (.), o pessoal da Vila do Aventureiro, por exemplo, se chama “o povo do aventureiro”, mas um dia eles descobriram que eram designados como caiçaras. É igual ao negócio dos índios também, os índios não se chamam de índios, eles se chamam de Bororo, Kaingangue, Yanomami, mas aí, diante desse contato e dessa problemática toda, virou uma categoria política. Pronto, é isso. E aí agora a mesma coisa esse negócio de populações tradicionais. Até aqui o depoimento desta antropóloga vai ao encontro do que pensa e escreve boa parte dos antropólogos e cientistas sociais citados neste capítulo. Porém, em seguida Fernanda criticou o fato de que “aquela coisa que o Diegues quer mostrar naquele livro, aquilo ali é uma maluquice, porque você pode perguntar assim: ‘mas você tem que preencher quantos daqueles itens pra ser considerado uma população tradicional?’. Bom, aí tem uns itens que daqui a pouco até eu posso falar que também sou população tradicional”. Ora, a crítica de Fernanda à definição proposta por Diegues de que qualquer pessoa poderia se declarar “população tradicional” foi e continua sendo um dos principais argumentos de pesquisadores que se alinham com perspectivas sustentadas por José Truda Palazzo, John Terborgh e Carlos Peres, Fábio Olmos e os demais 11 cientistas que assinam artigo aqui já citado várias vezes, “A crescente ameaça das ‘populações tradicionais’ à Mata Atlântica”. Como visto na nota de rodapé 141, Olmos et. alli (2001, p.282) alegam que a “definição [de população tradicional] foi vetada quando da aprovação 18 Ilha Grande, localizada no litoral sul do Rio de Janeiro, caracteriza-se por permanentes conflitos envolvendo a população local e agentes ambientais por conta das unidades de conservação existentes em seu interior. Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
do SNUC [porque] ela permite que quase toda a população rural brasileira possa ser classificada como ‘tradicional’”. E não por acaso Fernanda, agora se aproximando de Barretto Filho, reconheceu adiante o caráter problemático da adoção deste tipo de definição por inclusão e, não, por extensão, como propõem Cunha e Almeida (2004): “essa linha de argumentação não rende muito, não nos leva muito longe. Uma lógica de explicação contrária que seja bem consistente derruba essa idéia. Então, é preferível falar em população local, seja ela qual for, com seus direitos”. Comentei então com ela: a expressão ‘populações tradicionais’ pode ser adotada, ao mesmo tempo, como uma categoria analítica e política. Como ferramenta analítica, ela seria usada para interpretar realidades onde poderiam ser encontradas pessoas que se encaixassem naquilo que se estaria entendendo como população tradicional. Bom, mas já como categoria política, ela seria importante porque poderia ser usada na luta por direitos, porque, ao me inserir debaixo dela, me reconhecer nela, eu poderia reivindicar direitos específicos, além de permitir que outros que estão na mesma situação façam o mesmo e, com isso, aumentar a força de pressão, o poder que tenho de influir nas políticas públicas. Embora Fernanda tenha concordado de imediato com esta última possibilidade dizendo: “Ué! Eu sou favorável a que isso seja usado”, quando ia lhe sugerir que “alguns falam que quando alguém critica a idéia de população tradicional”, minha colega complementou: “você está retirando a força delas”. Assim, depois de completar meu raciocínio dizendo “isso, retirando assim a força desta categoria no sentido de diminuir desigualdades sociais”, Fernanda reconheceu: “é, de fato é muito delicado, você tem toda a razão. Porque se você diz: ‘não, eles não são mais tradicionais’, isso é o argumento do acusador, do ambientalista hard, tolo (.)”. E, para enfrentar esta questão “delicada”, Fernanda construiu a seguinte argumentação: mas aí, como é que antropólogo entra nessa conversa sem enfraquecer o possível uso que algum grupo venha a fazer? A gente fala: “não vem ao caso”. Porque o que diabos é tradicional? Então você aí já desarma o acusador. Porque se ele vem com esse negócio de dizer “eles não são mais tradicionais, então não tem direitos”, a gente fala: “não vem ao caso, eles tem direito de estar ali”. Porque, primeiro, é igual a esse negócio de raça, raça é uma idéia, é uma concepção, serve pra acusar, pra discriminar, mas o que diabos é raça, que nem na biologia se sustenta? Mas, pensando bem, não sei se estou fazendo uma boa comparação, porque aí a gente detona o conceito. O negócio, acho, é conversar de outro jeito, aí a gente conversa com a população local, que tem direito de estar ali. E aí eu estou sendo bem parcial, reconheço. Veremos no último capítulo (itens 6.12 e 6.13) que a associação com a questão das “cotas” foi recorrente no depoimento de vários entrevistados. Mas, após as observações acima, como percebi que minha interlocutora estava um tanto incomodada com sua própria resposta à questão que havia lhe sugerido inicialmente, provocativamente expus a tem um discurso de pesquisadores que, e essa é uma leitura minha, mas que vai num sentido muito parecido com críticas que se faz a política de cotas, de que, ao se ter uma política pública para populações tradicionais, se estaria excluindo outros grupos subalternos que não conseguiram, por n razões, se organizar no sentido de serem incluídos dentro dessa categoria. Aí você estaria criando um preconceito contra populações locais que não conseguiram perceber o uso potencial dessa categoria. Além disso, como no ministério do meio ambiente agora tem uma política nacional dirigida para essas populações, estariam entrando antropólogos como mediadores que, muitas vezes, exercem papel fundamental quando se precisa Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
dizer quem são essas populações tradicionais. De uma certa forma, muito parecido com o que aconteceu no passado com a Funai. A reação de Fernanda as minhas observações ilustra a reflexividade constante presente no modo como cientistas pensam controvérsias sobre nosso “tema quente”. De certo modo, o diálogo que vínhamos tendo levou minha colega, neste momento, a repensar o que havia dito e, de fato, a fazer uma profunda auto-análise sobre sua postura diante o olha só. Não! É tudo. [sete segundos de silêncio]. Não. Vou até recolocar a questão da raça. Porque tenho colegas que são totalmente favoráveis a cotas e outros que são totalmente contra. Aí, quando digo que raça não existe, você sabe, em termos humanos não tem como delimitar uma raça, porque seríamos tantas raças quanto o número de pessoas que existem no planeta. Isso é uma coisa. Outra coisa é raça sociologicamente falando. Aí tudo bem, aí as pessoas inventam, aí tenho mais é que reconhecer que isso existe, que é uma coisa complicadíssima e que pode servir pra coisas terríveis etc e tal. E também, enfim, existem diferenças que são atribuídas à raça e que as pessoas usam pra afirmar como qualquer outra coisa, digamos assim, uma coisa que é atribuída à condição racial. Agora, isso que você falou, estou aqui pensando. [quatro segundos de silêncio]. Acho que, indiretamente, acabei, com meu discurso anterior a sua pergunta, alimentando a idéia de que esse conceito de população tradicional é uma besteira e não deve ser usado. Mas só falo isso reforçando uma coisa que acho mais importante para todos, que é a idéia do pertencimento local. Agora, a sua pergunta. [quatro segundos de silêncio]. Agora tenho que pensar. [três segundos de silêncio], porque tenho que pensar sobre isso. [três segundos de silêncio]. Agora estou raciocinando sobre tudo o que disse antes e acho que estaria alimentando esse grupo que diz: “olha, quem defende a idéia do uso político de população tradicional está tirando a possibilidade de outros grupos que deveriam ser contemplados serem incluídos nessa política”. [pausa de quatro segundos]. Não sei como resolver isso não. Em princípio eu acho que o que deve valer pra garantir direitos é o pertencimento local. Bom, mas não, aí eu acho que continuo no mesmo ponto, alimentando aquele outro argumento. [pausa de dois segundos]. Situação difícil essa. Finalmente, após nova pausa para pensar sobre como prosseguiria com seu depoimento, Fernanda concluiu: “é, acho que é essa coisa de que repente o sujeito descobre que se ele afirmar a posição de quilombola dele ele vai conseguir acessar esses direitos, bom, que seja assim, que seja. Mas não pode parar aí, porque isso é pouco. E quem não consegue? O que fazer?”. O diálogo que tive com esta antropóloga (sobretudo o trecho final) mostra que debates sobre nosso “tema quente” são, em primeiro lugar, dinâmicos, ou seja, novas questões, dúvidas e perguntas estão surgindo neste exato momento, sendo que, se chegarem aos ouvidos nativos, isso poderá levar determinado pesquisador a rever sua “posição” e, até mesmo, a mudar de “posição”. Por outro lado, mesmo que isso não ocorra, como será preciso, no mínimo, pensar sobre o assunto e suas implicações, isso também poderá ajudar a reforçar sua antiga “posição”. Mas, em todo caso, o que este episódio mostra é que pontos de vista não são pensamentos absolutos, pois podem, a partir de uma atitude reflexiva, ser flexibilizados. A existência de planos diferenciados em que argumentos são acionados e outros não, bem como a instabilidade – entre ou intradisciplinar – são características do modo como se dão as relações entre pesquisadores. Além disso, a diversidade de visões internas às disciplinas faz com que haja tanto antropólogos extremamente críticos à produção de Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
seus colegas como biólogos críticos ao pensamento de outros biólogos. Voltando aos Nuer, maior proximidade (no caso, disciplinar) não significa necessariamente afinidade automática. Em certas situações, discussões entre biólogos e ecólogos ou entre antropólogos e sociólogos sobre um tema específico podem ser extremamente controvertidas. Igualmente, um tema (geral ou específico) pode levar um conjunto de biólogos (ou de antropólogos) a estabelecer profundas divergências. Enfim, o debate pode dar muito pano pra manga dentro de um universo discursivo restrito. Quando começamos a falar em disciplinas, subdisciplinas e especializações distintas, níveis diferenciados de afinidade-alteridade são acionados. Também aqui, ao opor cientistas sociais a cientistas naturais, a amplitude da distinção tende a ser mais abrangente do que divergências existentes entre sociólogos ou, ainda, entre ecólogos. Assim, um tema qualquer discutido só por antropólogos, sociólogos, historiadores ou, ao contrário, só por ecólogos, zoólogos, botânicos será qualitativamente quando todos estes Voltando à metáfora da estátua de Latour, cientistas que trabalham com nosso “tema quente” se deparam no seu dia-a-dia com colegas, situações e argumentos diferenciados, sendo que poderão responder a eles também de formas distintas. Do mesmo modo, dependendo de seus interlocutores ou com quem eles pretendem debater, poderão perfeitamente escolher falar sobre isto e não aquilo; possibilidade esta, aliás, que deve ter ocorrido diversas vezes nas entrevistas que realizei (pelo menos de minha parte, posso dizer que, como quando chegamos a uma encruzilhada, conforme o andamento dos diálogos com meus interlocutores escolhi respostas, perguntas ou comentários em detrimento de outras). Em suma, em seus percursos, pesquisadores se deparam com muitas encruzilhadas, sendo que, na maioria das vezes, sabem bem que caminhos querem tomar e os riscos que estão dispostos a assumir. Por outro lado, como vimos no caso do “fogo amigo”, os “clãs” de que fala Mafesolli na epígrafe do item 3.1 não se restringem ou se acham circunscritos às áreas do conhecimento mais gerais ou às disciplinas que às compõem. Pelo contrário, no caso das discussões sobre nosso “tema quente”, estão disseminados de modo nada linear, determinado e mecânico, bem como não são tão facilmente acessíveis e discerníveis para o iniciante que se aventura a tentar perceber nuanças que envolve o debate científico sobre esta temática. Se, como vimos com Bourdieu e Flaubert no tópico dois, existem vários Dambreuse e Arnoux atuando, há também muitos Frédéric (protagonista cuja marca é a inconstância e o transito entre o universo social destes dois personagens) Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
participando das discussões sobre nosso “tema quente”19. Que me perdoem a liberdade do trocadilho, mas se podemos dizer que alguns pesquisadores utilizam preferencialmente mãos e pés esquerdos e outros mãos e pés direitos, há também muitos ambidestros entre eles que, conforme a situação, podem fazer uso tanto de uns como de omos colocados diante de um tipo de demarcação de antagonismos e aproximações particularmente relevante: o plano das atuações, atividades, competências e aptidões de profissionais que seguiram ou seguem uma trajetória marcada por diferentes trilhas acadêmicas. Portanto, abordar este plano distintivo-identitário específico adquire importância significativa, visto dizer respeito a um dos fatores que garante legitimidade para que cientistas atuem como experts tanto em suas respectivas áreas como em contextos reconhecimentos) científicos. , a necessidade de acentuar linhas de alteridade com o propósito de identificar “visões” diferenciadas. Além de cientistas naturais e cientistas sociais, quando começamos a falar em ecólogos, sociólogos, educadores ambientais, biólogos, antropólogos, historiadores, oceanógrafos, engenheiros florestais, geógrafos, agrônomos, arqueólogos, advogados etc., percebemos que estamos diante de modos de observar, pensar e refletir sobre a realidade bem peculiares. No que concerne à pesquisa, somos colocados diante de um tipo de demarcação de antagonismos e aproximações particularmente relevante: o plano das atuações, atividades, competências e aptidões de profissionais que seguiram ou seguem uma trajetória marcada por diferentes trilhas acadêmicas. Portanto, abordar este plano distintivo-identitário específico adquire importância significativa, visto dizer respeito a um dos fatores que garante legitimidade para que cientistas atuem como experts tanto em suas respectivas áreas como em contextos menos herméticos: a construção-produção de conhecimentos (e reconhecimentos) científicos. Quando profissionais se referem às competências atribuídas e aos papéis desempenhados, a dualidade se materializa na oposição entre estas duas áreas do saber científico, sendo que, ao se distinguirem em termos disciplinares levam a identificação da bipolaridade até as fronteiras que separam ciências naturais de ciências sociais. Mas, a despeito do caráter acusatório e provocativo ou, ao contrário, conciliatório e propositivo, os trechos acima ilustram a disputa pela ampliação de suas áreas de interesse e pela 19 Quem já leu este romance de Flaubert (1995) sabe que não se trata de alguém que ficaria propositalmente sempre “em cima do muro” ou que faria uma espécie de “jogo duplo”. Nada disso. O que ocorre é que, além de Frédéric possuir uma personalidade complexa e pouco previsível, o ambiente estrutural que marca os eventos em que ele se vê metido e as opções que lhe são apresentadas não permitem que uma decisão definitiva seja tomada. Generated by Foxit PDF Creator Foxit Softwarehttp://www.foxitsoftware.com For evaluation only.
demarcação de fronteiras entre campos disciplinares diferenciados. Daí o argumento – comum não só na academia, mas nos órgãos encarregados de gerir áreas protegidas ou mediar conflitos com populações locais - de que sociólogos e antropólogos estariam extrapolando o alcance de suas qualificações ao invadir espaços que deveriam ser ocupados por biólogos e engenheiros florestais, sendo a contrapartida igualmente válida. A seguir, apesar de propor possíveis explicações para esta situação, adianto que elas servirão como contraponto para refletir sobre aspectos não tão evidentes no caso de tais

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